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ARTIGO · PEDRO PETERSEN

Marcas na era da polarização: o case Havaianas

No ambiente conectado, toda comunicação é interpretada como posicionamento. A questão central não é se uma marca deve ser política, mas se consegue sustentar coerência entre discurso, cultura e prática.

Por Pedro Petersen · Conteúdo originalmente publicado no LinkedIn

A publicidade nunca foi neutra. Mas, no atual estágio da sociedade conectada, ela se tornou inevitavelmente interpretada, julgada e politizada.

Marcas deixaram de ocupar apenas o espaço funcional do mercado para atuar como agentes simbólicos em um ambiente marcado por tensão cultural e polarização permanente. Nesse contexto, toda comunicação, inclusive o silêncio, passou a ser percebida como posicionamento.

Polarização não é o mesmo que ideologia

A questão central não é se marcas devem se posicionar politicamente ou ideologicamente, mas se compreendem o contexto em que operam.

Polarização não é ideologia. Ideologia diz respeito a sistemas de valores; polarização é o campo emocional e social onde esses valores colidem. Ignorar essa distinção leva marcas a decisões reativas, guiadas mais pela conveniência do que por estratégia.

Posicionamento exige coerência

Do ponto de vista do marketing estratégico, marcas não têm a obrigação de assumir posições políticas. Mas têm a responsabilidade inegociável da coerência.

Posicionamento não pode nascer de pressão social, de ciclos de indignação ou de tendências passageiras. Ele precisa estar ancorado no propósito da marca, em sua história e, sobretudo, em sua cultura interna.

Quando isso não acontece, o discurso perde valor e se aproxima do oportunismo.

Marcas relevantes entendem que não existem para todos. Elas constroem pertencimento. Ao assumir uma posição clara, aproximam pessoas que compartilham valores semelhantes e afastam outras. Essa exclusão não é falha; é consequência natural da clareza.

O verdadeiro risco estratégico não está em perder audiência, mas em não saber para quem a marca foi criada.

Ética deixa de ser complemento e passa a ser estratégia

É nesse ponto que a ética deixa de ser um complemento e passa a ser o eixo central do posicionamento.

Toda comunicação influencia percepções, comportamentos e narrativas sociais. A decisão de se posicionar não é apenas mercadológica; é ética.

A pergunta fundamental não é “isso engaja?”, mas “isso contribui?”. A marca está promovendo diálogo ou apenas explorando a polarização como ferramenta de visibilidade?

Quando causas sociais ou políticas são reduzidas a linguagem estética, slogans ou campanhas desconectadas da prática, o posicionamento perde legitimidade. O consumidor contemporâneo não exige perfeição, mas exige coerência.

Antes de se posicionar, marcas maduras se fazem perguntas difíceis: esse tema faz parte do nosso DNA? Temos ações que sustentem esse discurso? Estamos preparados para perder mercado por essa escolha? Conseguimos sustentar essa posição ao longo do tempo?

Quando essas respostas não são claras, o silêncio estratégico pode ser não apenas prudente, mas ético.

Marcas não precisam ser políticas. Mas precisam ser conscientes do contexto cultural em que atuam. Sem coerência, o posicionamento se dissolve. Sem ética, vira oportunismo. Sem identidade, torna-se ruído. No marketing contemporâneo, ética não é acessório. É estratégia.